terça-feira, 17 de setembro de 2013

A libertação da matéria


Por não passar de um cão,
Um reflexo infantil.
Às sombras alheias...
Temo não ser nada além de uma consequência sem causa intencional.
Um acidente, randomismo.
Numa das muitas variáveis e combinações analíticas
Que compõem a informação genética.
Esse acaso, que persiste em sobrepor-se ao inferno de ser
Por meios tantos, supera-se.
No purgatório das palavras, fatigas, perfeição.
Progride lentamente. A cada polegada na escalada da abolição de si.

J.Caetano Jr.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Cogito


Como existo além do que me diz o existencialismo?
Como funciono além do ser fisiológico que sou?
Qual a composição além da material que conheço?
Ou como reage esse ser químico ao ambiente?
Do que é composto? Em quantas partes?
Qual a menor partícula? Em quantos átomos?
Duvido, e isso é tudo o que sei.
E das certezas que tenho
A mais concreta é: cogito.
Ergo as minhas dúvidas
De fato existo?
Também duvido.
Penso.

J.Caetano Jr.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Instrumentos silenciosos

A tarde cinzenta cai como um manto, à meia luz. Ele se aproxima da porta. Lentamente retira as chaves do bolso. Abre a fechadura, gira a maçaneta e entra em passos fúnebres. Suas mãos são frias, seu olhar é baixo e sua barba mal feita. É uma meia-barba. O cabelo despenteado apenas demonstra a não preocupação com a aparência dirigindo suas ações. 

A casa é grande e vazia. Esta noite ele prefere não estar com grandes e admiráveis compositores clássicos. Já fazem alguns dias que ele não convida Bach para um chá, nem janta na companhia de Beethoven e Tchaikovsky. Hoje ele está só. Encontrar-se consigo o traz uma sensação de alívio e conflito. Mas a serenidade predomina e flui devido ao alívio de saber que não incomoda ninguém naquele momento. Como se a própria paz fosse a dos outros. Como se a paz dos outros fosse sua própria. 

Ele olha para o pequeno som enquanto prepara um café, e pensa: "Não, nada de Engenheiros do Hawaii hoje, tô sem clima." Senta-se no sofá, com as luzes apagadas. No seu trono. Com apenas um gesto manual, ordena à TV que se ligue. A tecnologia obedece ao rei. O casual rei de si mesmo. Em alguns minutos, após passar por todos os canais freneticamente, o silêncio retorna. Um silêncio pesado, cheio de sons de motores, conversas e sirenes da rua. 

É fatídico mas a solidão o agrada. O canto da sala prende sua atenção. Não são os retratos de família, lembranças ou coisas espantosas que travam seu olhar. Mas o canto empoeirado, e nele um violão seminovo, modelo folk dos anos 10. Aproxima-se e vê o quão complexo e bem feito é. E quão útil seria se alguém o tocasse. O verniz do instrumento ainda reflete alguma coisa. Vê-se no violão. Sem emitir som algum. Empoeirado e sozinho.

J.Caetano Jr.  

terça-feira, 23 de julho de 2013

Mortal


"Em silêncio se vê num banquinho
Ou num canto qualquer do passado
Rodeado por boas lembranças
Insistindo em deixar velhos hábitos
Desdobrando papeis rabiscados
Solfejando canções incompletas
Abraçando melancolicamente
O sentido mortal dos poetas,
E a fugaz complexidade
Material dos organismos vivos.
A continuidade fatal da existência."

J.Caetano Jr.


quarta-feira, 10 de julho de 2013

Solitude


Estou acordado, na presença dos meus egos
Com o odor dos que sufoquei,
As piadas inteligentes dos gaiatos
E a raiva suprimida que faz tremer as mãos dos rancorosos.
Tento não ouvir o choro dos meus fracassos
Nem o lamento dos pessimistas,
Sou atraído pelo perfume do poeta
E a inocência do menino, meu jovem
Enquanto a impetuosidade do guerreiro me inspira à sobrevivência
À humildade do nada sou levado, prostrado
Choro como um desvairado, um sem teto, sem ego, sem nada
Foge-me ao rosto o sorriso, a esperança e o belo
Foge-me o Bem, e como em guerra, estou só.
Permaneço acordado, na presença dos meus egos
Todos mortos.

J.Caetano Jr.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Orações



I

Porque Deus? Só te vejo como aquele
Que não quer minha felicidade?
Porque como o torturador que planeja dores,
Ou como o caçador que me arma emboscadas te temo?

Porque a dúvida me açoita
E o temor me entorpece?
Que covardia e insegurança
Ainda batem à minha porta?

Porque Deus? Ainda te culpo?
Por minhas lágrimas e marés confusas
Que sem dúvida me afogam.
Porque me fizeste solitário e desse jeito insatisfeito?

II

Porque Senhor? Fizeste-me tão só?
Porque puseste entre os homens,
O que menos quer ser humano?
Porque Senhor, não me deixas dormir e acordar
Sem nada sentir, como todos os outros?
Porque meus pensamentos me inquietam e não encontro sossego?
Porque como o pior dos criminosos me enxergo,
E insisto, nos mesmos erros todos os dias?
Não me destes inteligência para discernir o bem?
E se tão sábia percepção possuo,
Porque ainda me sujeitam as paixões?
Porque ainda como grilhões, tornam-se as palavras vãs?
Ah, tudo que eu almejo encontrar parece não existir.
Como se não houvesse paz, como se a dor não tivesse fim.

J.Caetano Jr.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Aves


"Sonhei com aves que circulavam
Em uma elipse mal traçada
Sem liberdade, também sonhava
A agonizante revoada

Focadas em nada, procuravam
De olhos, lágrimas derramadas
E em fome algumas morriam
Batendo asas desesperadas

Voltem aqui, guardiãs da agonia
Devolvam rápido, minha pouca paz
Minha lucidez e sanidade
E o que resta da minha alegria

Pois, já não basta comerdes minhas carnes
E beberdes meus versos bêbados...
Se dos meus medos, eu mesmo bebo,
Porque insistem, em extrair-me partes?

Porque me enganam? Essas aves...
Saturando rimas egoistas,
E me inspiram a essas rimas
Fantasiosas, vulgares artes.

Dissocio-me à normalidade
Flutuando alto com os pássaros
Assentido caio, como um covarde!
De volta a terra arrasto passos.

Um grifo arrancou-me os pedaços!
E o que sofre o poeta, não o importa
Pois dizem: temos a força das
Valquírias, queremos apenas sua poesia,

Das fênix apenas a ressureição
Do ar, puramente a leveza
Da-nos do gelo, dura frieza
Do Cristo, somente a redenção

Hoje de volta a realidade
-Pois quem não voa vai pelo chão-
Feito pardal de asa quebrada...
Voei meu sonho, caí canção

Se não morrer, que eu viva então,
Gozando da vida as coisas boas...
Ou perca a mesma, diligente
Dignamente, como Sansão

Na Babilônia pós-moderna
Em meio a música e barulho
Sejam Dagom e as filistéias
Comigo então, um mesmo entulho."


J.Caetano Jr.
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